quinta-feira, 18 de novembro de 2010

O Refri, não.

Tudo começou com uma costelinha.
Além de ganhar uma cicatriz medonha,
o pobre Adão nem teve direito ao voto.
Tudo foi planejado e calculado com frieza.
Foi pesado demais para o nosso herói que não resistiu.
Caiu na tramóia e sucumbiu.
Dormiu inocente debaixo de uma amoreira
e acordou com o sorriso daquela bela criação divina:
A mulher!
Depois de analisar o material,
até que não foi má ideia liberar uma costela.
Tudo bem, tudo bem. Uma costela vai.
Mas pode parar por aí.
O tempo foi passando,
a humanidade foi se multiplicando,
as cidades foram se espalhando,
e o homem foi dominando.
Ele saía pra caçar com sua lança,
e seu vestidinho de pele,
enquanto a mulher ficava na caverna,
cuidando dos afazeres domésticos
e tirando a poeira das pedras
antes dos neandertaizinhos voltarem da escola.
Tudo mais que perfeito. Tudo na maior calmaria.
Até “calmaria” seria mais que perfeito se fosse verbo.
Mas chegou o dia em que
a mulher colocou na cabeça
de que queria sair da caverna
para ver o brilho do sol.
- Só uma espiadinha meu amor – disse ela.
O homem não levava aquilo à sério
e brincava dizendo que sua princesinha
estava ficando muito saidinha.
Era fogo de palha, ia passar.
Os dias passaram
e a mulher continuava
com aquela ideia insana.
Tudo ia sob controle
até as pedras e paus começarem
a voar dentro de casa,
a greve de sexo
e até ameaças de ir embora
pra casa da mãe com as crianças.
O homem estava
perdendo as rédeas.
Já não podia mais segurar
a determinação da mulher.
Pensando no pior, foi difícil não ceder.
- Tudo bem, só uma espiadinha.
- Meu chuchuzinho preferido. – Disse ela com um sorriso.
Os anos passaram.
Os tempos mudaram.
Mas a mulher continuava
com suas macacadas.
Sempre querendo o que
elas chamavam de espaço.
De vez em quando apareciam umas
que só entravam em cena pra ferrar
com a vida masculina.
Algumas até chegaram a fazer
algum barulho.
Mas o homem já sabia
como lidar com elas.
O domínio fôra retomado
com punhos de ferro.
E novamente o homem
tomou seu lugar como
o cabeça da sociedade.
Mas teve um dia.
Ah, aquele dia! Até hoje alguns
ainda evitam o assunto.
O homem voltou pra casa.
Cansado, depois de um dia
repleto de serviço,
empresas para gerenciar
operários para supervisionar,
máquinas a serem consertadas,
folhas de pagamento,
a economia mundial, as ações,
o mundo empresarial e suas cobranças.
Ele abre a porta esbaforido
e a vê.
Braços cruzados, rosto sério.
- Quero trabalhar fora. – disse ela.
Por um momento o homem
pensou ter errado de casa,
mas não. Sua mulher, seu docinho,
sua garota, estava ali na sua frente,
de cara amarrada, e queria mesmo
trabalhar fora.
Ela não me ama mais? Pensou o pobre homem.
Eu sou um mal pai?
Eu não sou um bom marido?
Suas mãos começaram a tremer,
e suas pernas já não davam conta
do seu corpo pesado.
Foi de encontro ao chão.
Sua mente girava,
mas ainda podia ouvir os gritos da mulher
por ajuda.
De repente percebeu
que estava demorando
demais para acordar
daquele sonho.
E apagou.
Foi retomando a
consciência aos poucos,
acreditando que aquele
tinha sido o pior pesadelo
desde a infância marcada
pelos sonhos com a tia Beth
e sua verruga nos lábios.
Acordou amparado pela mulher.
- Ah querida, você não vai acreditar. Foi horrível.
Eu cheguei em casa e você queria nos deixar.
Você queria um emprego, acredita? Um emprego!
O homem caiu na gargalhada.
Que sonho tolo pensou ele.
- Amor. Mas eu quero um emprego mesmo. – Interrompeu a mulher.
O homem não teve reação.
- Eu quero independência,
poder comprar minhas coisas.
Ajudar você nas despesas.
- Mas você já tem tudo. – Retrucou o homem.
Tudo o que você pede eu dou.
Sapatos, roupas, jóias,
jantares nos restaurantes mais finos,
até as estrelas eu dou se você pedir.
- Não seja infantil querido.
Eu só quero aprender coisas novas.
Imagina. Eu até podia trabalhar em
alguma das suas empresas.
Nós trabalharíamos juntos.
O homem não disse nada.
Aliás, não disse mais nada durante semanas.
Esperava que a mulher esquecesse
aquela ideia. Afinal, aonde já se viu?
Uma mulher trabalhando fora?
E pior: a sua. Nunca!
Durante os dias que se passavam,
as desculpas pra evitar o assunto
se extinguiram de tal forma,
que o homem precisou inventar
motivos um tanto exóticos para não
conversar sobre isso com a mulher.
Sempre arrumava uma desculpa de que
ia fazer hora extra no serviço.
Toda semana, um parente distante falecia,
e precisava ir ao velório pra compensar
os anos de ausência afetiva.
O carro desapareceu no meio da estrada
quando ele foi mijar na árvore. No dia
seguinte especulava-se que um OVNI foi
avistado na região.
Chegou a gastar um fortuna
em hotéis pra não dormir
em casa e ter de encarar
a esposa revolucionária.
Quando o dinheiro acabou
pediu para ficar na casa
dos amigos.
Mas eles preferiram
não se envolver na história.
Ninguém queria se meter
com uma mulher querendo um emprego.
O homem então se sentiu só.
Sem amigos, sem família,
sem uma mulher normal.
Por que a mulher inventou
essa história de emprego?
Tudo era tão feliz, tão perfeito.
Parecia que dessa vez o homem
perdera mais uma vez.
O homem voltou pra casa.
Abriu a porta e a mulher estava
no fogão preparando o almoço.
Tão linda a minha princesinha, pensou ele.
Ainda não acreditava
que as coisas tinham
chegado àquele ponto.
Ela ouviu a porta e se virou.
O homem exausto que via
não parecia com o seu homem.
Estava cansado de tentar fugir.
De tentar vencer o destino.
Traidor. Se rendeu facilmente
ao tormento.
Um pouco mais de vontade
e tudo iria voltar ao normal.
Mas, resolveu ir pelo caminho mais fácil
sem lutar. Sem brigar. Homem fraco.
Já era de se esperar.
No outro dia a mulher
já tinha carteira assinada.
E o tempo?
Esse passou.
Trazendo consigo
mudanças inesperadas.
A mulher já não era mais a mesma.
Ela gritava, saía as ruas,
não se calava mais.
Só sabia reclamar e se meter
nos assuntos de macho.
E não demorou pra
se meter na política.
Tudo ia bem, até o dia
em que ela acordou
e resolveu fazer um inferninho
pra variar.
E dessa vez ela veio com um papinho
de ter direito ao voto.
Essa mulher.
A cada ano que passa
vai ficando mais moderninha.
E parece que dessa vez ela descobriu
o segredo pra conseguir as coisas.
Escandalosa por natureza sabia irritar.
Sabia incomodar o sono do homem.
Chorando, seduzindo, gritando,
xingando, andando, não importava.
Ela conseguia convencer.
O homem não sabia mais o que fazer
pra conter a mulher e suas vontades.
E mais uma vez se fez motivo de risos.
E então ela estava lá.
Sorridente e contente nas urnas
dizendo que finalmente ganhou
o tal de direitos iguais. Pff.
A decadência já havia começado.
Quando viu, a mulher já dava ordens.
Tinha gritado tanto que se tornou patroa.
E o homem, esse patético.
Se tornara um funcionário.
A pergunta era só uma na mente masculina:
Aonde foi que eu errei?
Mas a coisa não para por aí.
E se eu te disser que
essa criatura esbravejou tanto que
ela já se tornou Presidente?
Essa abusada. Não bastasse uma costela
agora quer o mundo.
Mas eu sou um remanescente.
E vou continuar resistindo.
Pode me roubar tudo.
Costela, emprego, saúde, e até as eleições.
Mas de uma coisa eu não abro mão:
Vocês vão sempre levar os salgadinhos
nas festinhas.
O refrigerante sou eu que levo.

4 comentários:

Anônimo disse...

uhhauhauahuhahau! Obrigada pelo entretenimento, Milla! :) Texto bem legal! Bjo!

Chris - Iraque, Bahia, Brasil

@bellanogueiira disse...

kkkkkkkkkkkkkkkkkkkk
Morri de rir aqui. Realmente essa é a única coisa que ainda não conseguimos conquistar.

Beijos Max.

Anônimo disse...

Muito boaaa..kkkkkk
fera pura realidade...
rsrsrs

Joelma disse...

muito bom o texto.