terça-feira, 19 de fevereiro de 2008

Capitulo 3

Quando o pai e a mãe de Amanda chegaram ela já tinha ido dormir. Ela não queria estar acordada quando a mãe dela chegasse segurando seu irmãozinho nos braços. Vanessa estava grávida de 8 meses e meio de um menino que com certeza iria tomar toda a atenção da mãe. Se perguntava se não estaria sendo egoísta querendo a mãe só pra ela, mas era só o que ela tinha. Desde de que seus pais descobriram que ela tinha um sério problema de audição, Amanda percebeu um forte afastamento por parte do pai. Marcos queria um menino; primeira decepção. "O que importa é que ela tem saúde" ele disse; segunda decepção. Ele também não conseguia se comunicar com ela por meio de gestos, de nenhum tipo. Por mais que tentasse e se esforçasse ele não conseguia; terceira decepção. Marcos só começou a se comunicar com a filha sem a ajuda da esposa quando ela aprendeu a ler. Amanda achava que o pai não a amava e depositou todo seu afeto na mãe, sua melhor amiga, sua melhor companheira, a pessoa que quase não precisava fazer gestos e Amanda sabia perfeitamente o que Vanessa queria dizer. Apesar de não estar morrendo de amores pelo novo membro da família, acordou e correu para ver o irmão e a mãe. Ela queria estar errada sobre sua mãe dar mais atenção à ele do que à ela. Também queria saber se o irmão, assim como ela, teria problemas de audição ou não. Mas não sabia ao certo sobre o que ela mais queria. Se conservar o amor e atenção da mãe, ter um irmão para brincar ou que o irmão também fosse surdo conseguindo assim, fazer com que o pai gostasse um pouco mais dela. Levantou da cama, balançou a cabeça pra parar de pensar nessas coisas e correu em direção ao quarto dos pais.

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2008

Capitulo dois

Seria bom que a dificuldade na escola, sua deficiência auditiva e seus fracassos nas paqueras fossem seus maiores problemas. Amanda tinha uma vida "normal" assim como todas as outras pessoas, se é que você pode considerar uma pessoa surda-muda normal. Mas havia uma coisa que estava ocupando os pensamentos dela. Na verdade estava deixando-a muito preocupada. Ela imaginava que conseguiria lidar com qualquer coisa neste mundo, afinal ela se tornou uma pessoa bastante forte justamente devido à sua surdez e o que estava por vir, ela tinha certeza de que não saberia como aguentar. Chegou em casa e ao fechar a porta viu o primeiro bilhete grudado perto da fechadura. "Amanda acabou a ração da Doroty, deixei dinheiro em cima da tv. Compre pão, queijo, presunto e ração. Levei sua mãe ao médico, ela sentiu dores e acho que vamos demorar. Papai" Definitivamente ela não estava preparada. Ligou o som no volume 34, colocou o dvd do Zeca Baleiro e tomou um banho. A mãe dela ensinou que quando ficamos a sós em casa e principalmente no banho, as coisas costumam acontecer. O telefone toca, a campainha também toca e às vezes visitas indesejadas chegam. Amanda adorava os ensinamentos da mamãe. E ligar o som no volume alto é uma das coisas que mamãe ensinou: "Quem chegar e bater à porta desiste pois o som tá alto e quem está dentro não vai ouvir e não vai ser incomodado." Mas na casa de Amanda tinha uma campainha especial que acendia uma luz dentro de casa, assim ela podia abrir a porta pra sua mãe. Mamãe era sua melhor amiga e agora ia acontecer uma coisa que talvez acabasse com a amizade das duas.

segunda-feira, 28 de janeiro de 2008

Capitulo um

Saiu correndo com os olhos fechados tentando segurar as lágrimas, e desejando ser cega ao invés de surda. Depois de alguns metros percebeu que não era personagem de um livro e achou melhor abrir os olhos, sentar e chorar. Ela já devia estar acostumada a isso, mas não estava. Amanda já tinha 14 anos e ainda não sabia lidar com garotos de olhar diferente como aquele. Porque quando as pessoas olham para as outras, elas simplesmente direcionam os olhos para as faces ou às vezes para os olhos da outra. Mas alguns garotos olhavam para ela como se vissem o mar pela primeira vez ou como se estivesse vendo uma apresentação do Cirque du Soleil. Como todas as meninas de sua idade, ela não se achava tão bonita. Neste dia ela estava usando os cabelos soltos e aquela farda horrível. Seria maravilhoso se ele ficasse só olhando mas ele tinha que vir falar com ela. Os dois amigos que estavam com ele ficaram incentivando-o até ele juntar coragem suficiente. Dava pra perceber pelas risadas e pelos pequenos empurrões. Quando ele veio caminhando em sua direção, ficou nervosa e com as mãos suando. Oi - começou ele - eu sei que a gente não se conhece mas gostaria muito de mudar essa situação. Meu nome é Gustavo. E estendeu a mão para ela. Amanda olhou para ele e fez um gesto tentando explicar que era surda. A cara de decepção dele foi de cortar o coração. Ele baixou a cabeça, deu as costas e andou em direção aos amigos que gargalharam dele. Foi a primeira vez que ela sentiu raiva de sua deficiência mas as próximas seriam muito piores. Ela ia conhecer o primeiro amor em breve.